SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE

“Leve-leve”, nunca uma expressão fez tanto sentido a descrever um país. Confesso, São Tomé e Príncipe era um sonho antigo. Estarei certo que será um dos poucos destinos a conservar uma beleza quase ingénua no século XXI. Falar de São Tomé e Príncipe é fazer uma viagem no tempo, com tempo. As coisas por lá passam-se sem o stress e a correria ao qual estamos habituados, “Leve-leve” dizem eles! Estas duas pequenas ilhas banhadas pelo oceano Atlântico e povoadas por gente simples, de um sorriso fácil e sincero, difícil de encontrar nos dias de hoje, são um paraíso para muitos ainda desconhecido.

São Tomé

Ia cheio de expectativas  como já frisei, era um sonho antigo. Sabia que esta viagem iria ser uma experiência marcante para a minha vida e ela começou assim que sai do avião.

O calor abrasador deu-me as boas-vindas, assim como as crianças são-tomenses à saída do aeroporto. Os turistas que chegavam eram recebidos em apoteose, todos os meninos queriam carregar as malas para os autocarros que serviam de transfere até ao hotel. Num ápice formou-se um grupo com sete oito crianças, todas elas com o mesmo intuito, receber uma moeda. Foi uma primeira impressão estranha de S. Tomé, mas tudo mudou a partir daí. 

 

Dois dias em S. Tomé foi manifestamente pouco para tanto que havia para conhecer. Como fiquei hospedado no norte da Ilha não tive oportunidade de conhecer a zona Sul onde estão as lindíssimas praias Jalé e Inhame, o Ilhéu das Rolas e o famoso Pico do Cão Grande. 

Ainda assim o que pude conhecer fez-me apaixonar pela maior ilha do arquipélago. 

 

Das Roças do Café às cascatas, a maravilhosa estrada de Santa Catarina, a Lagoa Azul ou a quase inalcançável praia dos Tamarinos, S. Tomé foi uma ilha que valeu a pena descobrir.

Devido à falta de transportes públicos, ou melhor, à inexistência dos mesmos fui obrigado a contratar um guia, foi a melhor coisa que fiz.

Não sei se serão todos assim prestáveis, simpáticos e sempre dispostos a satisfazer os nossos pedidos, mas o meu guia foi fabuloso.

Amador Vaz é um profundo conhecedor da ilha, um conversador nato e muito atencioso. 

Comecei a visita guiada pela Roça Monte Café. As roças do café e do cacau, mais do que contar ou mostrar como se fazem as produções dos respectivos produtos, levaram-me para a era colonial. As pessoas que por lá vivem contam historias desse tempo, de como eram bem tratados pelos portugueses apesar de serem seus empregados. Os mais novos vão à escola, todas as Roças tinham hospitais e escolas para quem lá trabalhava, algumas continuam activas como é o caso da Monte Café.

Uma manhã bem passada ouvindo os mais antigos são-tomenses com as suas vivencias e onde tive a oportunidade de provar o melhor café de S. Tomé, eu arrisco a dizer mais: foi o melhor café que tomei em toda a minha vida! A beleza das Roças está na historia que transmitem e a Roça Monte Café não fugiu à regra.

Estava na hora de nos fazermos à estrada, o Amador Vaz já me tinha avisado que perdíamos muito tempo nas estradas, umas por ser em terra no meio da savana, outras porque o alcatrão está cheio de buracos e é impossível andar a mais de 50 km hora.

O destino era a Cascata de S. Nicolau, a estrada para lá chegar não era famosa, mas por sua vez as vistas eram incríveis e a cascata ainda mais. Um curto mergulho, umas fotos, sentir o sabor de estar em convívio com a natureza. Que sentimento de liberdade!

De vidro aberto com o calor infernal seguimos viagem, durante toda a viagem o Amador foi-me falando um pouco de cada local, na passagem pelas cidades da Trindade e de Guadalupe encontrei a verdadeira essência do povo são-tomense, sempre com um sorriso e com a mão levantada para nos saudar.

A viagem fez-se em modo “leve-leve” até à praia dos Tamarinos, assim tinha de o ser. Esta praia é difícil de alcançar. Se chover por exemplo a estrada de acesso à praia, como é em terra, fica impossível de passar. No nosso vagar e com alguma perícia com o seu jipe, Amador lá me levou a mais um paraíso (tenho de repetir vezes sem conta esta palavra porque não há outra que melhor descreva o que os meus olhos por lá viram). Uma praia quase deserta, areia branca e uma água que se misturava entre o azul do céu e o verde da vegetação. A pequena ondulação convidava a um mergulho e a água quente que banha este país ainda mais.

Parei para almoçar, até nisso São Tomé recebeu uma dadiva da Natureza. Cozinham peixe como ninguém e juntam a isso algumas especialidades de chorar por mais como a banana massa pão.

Era hora de voltar à estrada, íamos agora conhecer uma das estradas mais bonitas do mundo, a Estrada que liga a Santa Catarina.

Mais uma vez a liberdade encheu-me a alma, que paisagem maravilhosa, o verde da densa vegetação fundia-se com o azul do oceano, o sorriso de cada pessoa e o acenar de cada são-tomense faziam-me querer ficar por lá. Foi uma simples viagem de carro, mas a viagem por esta estrada é muito mais que isso, é uma experiência difícil de explicar.

No túnel de Santa Catarina é o expoente máximo de beleza nesta estrada. As palmeiras tombadas na direção do oceano com o azul do mesmo, um pequeno grupo de turistas rodeados por crianças. O que estas crianças têm para nós oferecer é muito mais do que aquilo que lhe podemos dar. Dão-nos um sorriso ingénuo e verdadeiro, pedem-nos lápis ou cadernos para a escola, pedem roupa, mas nunca dinheiro, bem diferente das crianças do aeroporto. A sua genuinidade fez-me querer dar-lhes o mundo e o pouco que lhes dei sei que lhes encheu o coração. Responderam com beijos e abraços e saí de lá muito mais rico que o que cheguei.

O último destino era a Lagoa Azul, um pequeno local escondido de encantar. Hora do ultimo banho do dia, a água como sempre convidava a ficar lá até escurecer, a imponência do local fortalecia essa ideia, o fantástico pôr-do-sol foi a cereja no topo do bolo.

Um dia bem passado que me fez apaixonar por São Tomé!

 

No ultimo dia fui conhecer a cidade com o mesmo nome do país, uma bonita marginal e um centro em ruínas que ainda assim tem o seu próprio esplendor.

Príncipe

Não sei se conhecerei algum dia um local mais bonito que a Ilha do Príncipe. Que opulência, afortunados os que vivem lá!

Não pensem que estou a exagerar, eu também cheguei a pensar o mesmo, mas depois encontrei um grupo de amigos e um casal que constataram o mesmo que eu. Estou a falar de pessoas viajadas, o grupo de amigos por exemplo já tinha ido a mais de trinta países e afirmou com toda a certeza que o Príncipe foi o mais belo em que já esteve.

 

As praias e as pessoas, a junção perfeita que torna o Príncipe especial. Os dois unem-se para mostrar o quanto faz falta ao mundo o ser genuíno. Não há uma única pessoa no Príncipe que te deseje mal, não há uma única que faça o esforço para ser simpática, é simpatia autentica, não vi uma única pessoa cujo sorriso não me contagiasse e me obrigasse a, involuntariamente, responder com um sorriso!

Fui a Santo António, cidade que está no livro do Guiness como a cidade mais pequena do mundo. São cerca sete mil pessoas e quatro ou cinco ruas para visitar, a nível arquitetónico nada tem para oferecer, mas o que eu fui procurar foi um enriquecimento a nível pessoal, e nisso o Príncipe é rico. Fui-me misturar com as pessoas, perceber a realidade do povo, acolheram-me como se tivesse nascido lá, as crianças ofereciam-se para tirar fotos, sorriam, abraçavam-me e falavam comigo como se fossemos amigos de longa data.

Encontrei umas crianças a jogar à bola e dei-lhes um pequeno mimo. Levava comigo cinco ou seis camisolas de clubes já com o intuito de as oferecer, aquelas foram as premiadas. A felicidade de cada uma delas valeu toda a minha viagem, os abraços e a foto que regista o momento ficaram para sempre marcadas em mim, é por momentos assim que viajo.

É ainda tudo à moda antiga, lavar a roupa e a louça no rio, correr descalço ou mergulhar nu para o rio, por ali o tempo passa tão devagar, mas ao mesmo tempo passa tão bem!

Falta apenas falar nas praias, posso falar o que quiser, mostrar as fotos que quiser e mesmo assim não mostrarei a sua real beleza.

Conheci as praias mais bonitas do Príncipe num passeio de barco. Praia Macaco, Praia Banana e Praia Boi, todas elas esplêndidas, todas elas com uma beleza diferente, mas foi, com sinceridade, a Praia Banana que mais me encheu as vistas.

Para além disso tinha acesso às duas praias do resort, a Praia do Bombom e a Praia de Santa Rita. Todas elas têm uma coisa em comum: estão quase sempre desertas ou então com duas, três pessoas. Melhor é impossível, saio maravilhado desta Ilha!